Dois dedos de prosa · Seu Benedito
Benedito. Benedito de Assis, mas aqui todo mundo diz só Seu Benedito.
Esse chão daqui até a beira é meu desde antes de você nascer. Meu pai abriu no machado, e eu plantei nele quarenta e duas safras.
Agora eu conto: quarenta e duas. Antes eu nem contava.
Meus dois foram pra Salvador. Um trabalha em armazém, o outro eu não sei bem o que faz e não pergunto.
Nenhum dos dois volta pra enxada. Disseram na cara, e eu não guardo mágoa: enxada não é destino de ninguém, é escolha.
Então eu vendo. Dois mil e seiscentos réis, e eu não choro no preço — mas também não abaixo.
Duas coisas, antes de você sonhar. A primeira: minha divisa não encosta na sua. Entre nós tem a terra da Zefa, e é com ela que você tem que resolver primeiro.
A segunda: eu vendo a terra, não a casa. Eu morro aqui neste terreno, e quem comprar me herda junto. Se isso te incomoda, a gente nem conversa.
Olha a beira antes de decidir. A água corre ali o ano todo. Terra com água aceita quase tudo.
A cheia levou a ponte em fevereiro. Eu vi da varanda: primeiro foi o meio, depois o resto foi atrás.
O povo falou em consertar por um mês. Depois parou de falar.
Aqui é assim, meu filho. A gente espera cair, e depois espera alguém.
Vi você com aquele papel na mão. O convite da fazenda, né?
Escuta o velho: aquela terra do outro lado nunca deu nada pra ninguém. Não é por falta de chuva.
Meu avô cortava pau lá quando era rapaz. Parou de ir, e nunca disse por quê — e meu avô era homem de dizer as coisas.
Vá se quiser. Mas vá de dia, e volte antes de escurecer.
Pronto. O papel tá no seu nome e eu continuo na minha casa, como a gente combinou.
Agora me diga o que você quer que eu faça. Abre o painel aí e escolhe — eu faço o que der pra fazer.
E o que não der eu digo na cara: capina o dia inteiro eu não pego mais, {jogador}. Passei dos setenta.
Farinha eu faço sentado. Cesto eu tranço. Bicho de quintal eu cuido melhor que gente moça. Isso eu faço bem.
Aquele canto perto da água alaga em maio. Planta ali o que gosta de pé molhado, e tudo bem.
Se quiser saber de alguma coisa dessa terra, pergunta. Eu sei tudo dela, menos como largar.
Você aparece direto aqui, hein. Eu reparei.
O mais velho escreveu no ano passado. Uma carta de meia folha, com a letra apertada pra caber. Contou do emprego e não perguntou de mim.
Eu li umas trinta vezes. Não pela notícia — pela letra. É a letra dele, entende? A mesma que eu ensinei nesta mesa.
Vou te dizer uma coisa que eu não digo pra ninguém daqui, porque daqui todo mundo já sabe e ninguém fala.
Não é a terra que me dá medo de largar. É o dia.
Quarenta e dois anos eu acordo às cinco porque tem o que fazer. Se eu vender, no dia seguinte eu acordo às cinco e não tem.
Você é moço. Guarda isso pra quando fizer sentido.